Transtornos Alimentares

Felipe Alckmin Carvalho

O que são

Transtornos Alimentares são severas perturbações do comportamento alimentar que produzem diversas alterações fisiológicas e comportamentais. Têm etiologia multifatorial, que envolve vulnerabilidade genética, perfil psicológico/comportamental de risco e fatores de risco culturais, como a supervalorização de corpos emagrecidos (APA, 2014).

Pacientes com transtornos alimentares frequentemente apresentam prejuízos significativos nas relações familiares, amorosas e nas amizades e são comuns diagnósticos de depressão e ansiedade associados a esses quadros (Alckmin-Carvalho, Santos, Rafihi-Ferreira & Soares, 2016).

Embora a maior taxa de prevalência de transtornos alimentares ocorra entre mulheres jovens, pesquisas recentes apontam que, nas últimas décadas, a prevalência de problemas alimentares entre crianças e adolescentes (meninos e meninas) e entre homens está aumentando (Alckmin-Carvalho, Rafihi-Ferreira, Zazula, & Soares, 2013).

De modo geral, todos os transtornos alimentares têm curso crônico e baixa taxa de remissão espontânea. Isso significa que, sem ajuda de profissional, dificilmente uma pessoa com transtorno alimentar se recupera sozinha (APA, 2014).

Tipos de transtornos alimentares e sintomas:

Anorexia Nervosa

É um transtorno alimentar grave, associado às mais elevadas taxas de mortalidade entre todos os transtornos psiquiátricos. Caracteriza-se pela significativa perda de peso por meio de restrição alimentar, pela negação da gravidade do estado nutricional por parte do paciente, pelo medo intenso de ganhar peso ou tornar-se obeso e pela distorção da imagem corporal. A APA (2014) descreve os seguintes critérios para o diagnóstico:

(a) Restrição da ingestão calórica em relação às necessidades fisiológicas, levando a um peso corporal significativamente baixo no contexto de idade, gênero, trajetória do desenvolvimento e saúde física. Peso significativamente baixo é definido como um peso inferior ao peso mínimo normal e esperado.
(b) Medo intenso de ganhar peso ou tornar-se obeso, ou comportamento persistente que interfere no ganho de peso, mesmo estando com peso significativamente baixo.
(c) Perturbação do modo como o próprio peso e/ou a forma corporal são vivenciados, influência indevida do peso ou da forma corporal na autoavaliação, ou ausência persistente de reconhecimento da gravidade do baixo peso corporal atual.

Bulimia Nervosa

Transtorno alimentar caracterizado por episódios de ingestão de grandes quantidades de alimentos (compulsão alimentar), seguidos por comportamentos inadequados para prevenir o ganho de peso. A APA (2014) descreve os seguintes critérios para o diagnóstico de bulimia nervosa:

(a) presença de episódios recorrentes de compulsão alimentar: ingestão de quantidade de alimento em um curto período, com sensação de perda de controle do comportamento alimentar.
(b) comportamentos compensatórios, tais como indução de vômitos, uso de laxativos e diuréticos (práticas purgativas) e períodos de jejum prolongados e prática exagerada de atividade física, a fim de impedir o ganho de peso decorrente da compulsão alimentar.
(c) comportamentos compensatórios, que ocorrem no mínimo uma vez por semana, por um período de três meses.
(d) autoavaliação extremamente influenciada pela forma e pelo peso.

A principal diferença entre anorexia nervosa e bulimia nervosa é o estado nutricional. Enquanto pacientes com anorexia nervosa encontram-se extremamente emagrecidos, pessoas com bulimia nervosa apresentam-se com peso dentro da normalidade, ou levemente acima ou abaixo do intervalo de peso ideal.

Transtorno da Compulsão Alimentar

Ocorre quando há episódios de compulsão alimentar repetidamente, sem que haja tentativas de prevenir o ganho de peso por meio de métodos compensatórios, como ocorre na bulimia nervosa. Por esse motivo, frequentemente o indivíduo que sobre de transtorno de compulsão alimentar está com o peso acima do ideal ou obeso. A APA (2014) descreve os seguintes critérios para o diagnóstico:

(a) episódios recorrentes de compulsão alimentar associados a três ou mais dos seguintes aspectos:

  • comer mais rapidamente que o normal.
  • comer até se sentir desconfortavelmente cheio.
  • comer grandes quantidades de alimentos na ausência da sensação física de fome.
  • comer sozinho por vergonha.
  • sentir-se triste e/ou muito culpado após os episódios de compulsão alimentar

(b) os episódios de compulsão alimentar ocorrem, em média, ao menos uma vez por semana durante três meses.
(c) a compulsão alimentar não está associada aos comportamentos compensatórios, listados anteriormente.

Tratamento

O tratamento de transtornos alimentares envolve acompanhamento por equipe multidisciplinar especializada, composta por psicólogo, psiquiatra e nutricionista. Entre crianças e adolescentes, psicoterapia familiar é essencial para se alcançar melhores resultados. De modo geral, a identificação e tratamento precoces estão associados a melhores prognósticos, ou seja, quando antes o transtorno alimentar é diagnosticado e tratado, maiores são as chances de recuperação.

O primeiro objetivo do tratamento é a recuperação nutricional e a interrupção dos ciclos de restrição alimentar, compulsão e purgação. Paralelamente à reestruturação do estado nutricional, faz-se necessário explorar as variáveis determinantes do comportamento alimentar alterado, como o funcionamento familiar, as características individuais e as variáveis culturais envolvidas. Esse é o trabalho do psicólogo clínico especialista em transtornos alimentares.

Em psicoterapia o paciente com bulimia nervosa ou com transtorno de compulsão alimentar podem desenvolver repertórios de habilidades socioemocionais como de autocontrole, resiliência, resolução de problemas, de autorregulação emocional e de habilidades interpessoais. Pacientes com anorexia nervosa, por sua vez, podem desenvolver repertórios de flexibilidade psicológica, resiliência, de resolução de problemas e também de habilidades interpessoais.

Atualmente, as Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais (TCCs) são as mais indicadas para o tratamento de pacientes com transtornos alimentares. Dada a complexidade dos casos, o acompanhamento psicológico deve ser realizado com um psicólogo especializado na área. As Terapias de Terceira Onda, como ACT e FAP também têm apresentado índices eficácia promissores no tratamento dessa condição.

Referências

American Psychiatric Association. (2014). Manual diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-: DSM-5. Artmed Editora.
Alckmin-Carvalho, F., Santos, D. R., Rafihi-Ferreira, R. & Soares, M.R.Z. (2016). Análise da evolução dos critérios diagnósticos da Anorexia Nervosa. Revista Avaliação Psicológica, 15 (2) pp. 265 – 274. 
Alckmin-Carvalho, F., Rafihi-Ferreira, R., Zazula, R., & Soares, M. R. Z. (2013). Anorexia nervosa: diagnóstico, mudanças no perfil e tratamento. Revista Pediatria Moderna, 49 (7). pp 296-299.