Trastorno de Personalidade Narcisista

Rodrigo Fernando Pereira

O Transtorno de Personalidade Narcisista, ou simplesmente narcisismo, é classificado pelo DSM-5, o catálogo de transtornos mentais, como¹:

Um padrão difuso de grandiosidade (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme indicado por cinco (ou mais) dos seguintes:
1. Tem uma sensação grandiosa da própria importância (p. ex., exagera conquistas e talentos,
espera ser reconhecido como superior sem que tenha as conquistas correspondentes).
2. É preocupado com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal.
3. Acredita ser “especial” e único e que pode ser somente compreendido por, ou associado a,
outras pessoas (ou instituições) especiais ou com condição elevada.
4. Demanda admiração excessiva.
5. Apresenta um sentimento de possuir direitos (i.e., expectativas irracionais de tratamento espe-
cialmente favorável ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias expectativas).
6. É explorador em relações interpessoais (i.e., tira vantagem de outros para atingir os próprios fins).
7. Carece de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e as necessi-
dades dos outros.
8. É frequentemente invejoso em relação aos outros ou acredita que os outros o invejam.
9. Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes.

O narcisista, então, tem como característica principal esse sentimento de ser muito importante, especial, fora de série. Entretanto, isso não permanece apenas no seu pensamento. Suas atitudes cotidianas demonstram essa concepção, pois ele exige que os outros o admirem, reconhecendo o brilhantismo, as qualidades e o talento que ele acredita ter e que o diferencia dos outros. O narcisista reage muito mal quando ele não é colocado nesse patamar de superioridade, quando ele é tratado como uma pessoa “comum” e quando suas necessidades não são atendidas. A maior parte dos narcisistas são do sexo masculino.

Na verdade, por trás de toda essa aparência de superioridade, o narcisista tem, geralmente, uma autoestima incrivelmente baixa. É justamente por essa concepção extremamente negativa de si que ele busca uma compensação exagerada e é muito sensível às críticas ou à rejeição. Para o narcisista, é muito difícil aceitar a derrota e a tendência é que ele coloque sempre a responsabilidade pelos seus problemas nos outros.

Justamente pelo narcisista se achar superior, raramente ele reconhece que tem um problema, e é menos provável ainda que ele procure alguma forma de tratamento. Quanto ele procura, geralmente seu foco são os outros, e ele usa a terapia como um local de desabafo para dizer o quanto o mundo não está dando a ele tudo aquilo que ele merece.

Como qualquer transtorno de personalidade, o tratamento do narcisismo é difícil. O nível de consciência que a pessoa tem sobre o problema, a auto-observação e o questionamento de seus próprios padrões de pensamento e comportamento são fatores que podem favorecer uma melhor administração do quadro.

Conarcisismo

Se por um lado os narcisistas procuram pouco a terapia, por outro, as pessoas com quem eles convivem são as que mais tendem buscar ajuda. Isso porque o narcisista, na sua exigência por admiração, estabelece relações em que o outro é sempre o errado, o inadequado e o incapaz. Não é raro que as pessoas não percebem o jogo bem armado do narcisista e passem a acreditar nisso. Portanto, quando elas procuram ajuda, na forma de terapia, elas chegam realmente acreditando que elas têm algum problema sério e que precisam melhorar ou se “consertar” para atender às necessidades do narcisista. Esse padrão de funcionamento é chamado informalmente de co-narcisismo.

O conarcisismo² se refere a alimentar, inadvertidamente, o narcisismo do outro, do mesmo jeito que um codependente alimenta o vício de um dependente químico. Geralmente a pessoa conarcisista teve pais narcisistas, que ao não a validarem o suficiente, gerando no filho ou filha uma impressão de que se é naturalmente insensível, egoísta, incapaz de amar ou defeituoso. Não é raro que a pessoa conarcisista reproduza esse padrão nos seus relacionamentos, escolhendo parceiros narcisistas, que confirmam as crenças que eles têm sobre si mesmos e se comportando na relação exatamente da maneira que o narcisista espera.

Entre os traços apresentados pelos conarcisistas estão:

  • baixa autoestima
  • se esforça para agradar os outros
  • aceita excessivamente as opiniões dos outros
  • não tem clareza das próprias visões de mundo
  • frequentemente ansiosos e deprimidos
  • têm dificuldade em dizer o que sentem ou pensam sobre um assunto
  • duvidam da validade de suas opiniões (especialmente quando estão em conflito com as de outros)
  • assumem a responsabilidade pelos problemas nas relações

Como se pode ver, as caraterísticas do conarcisista atendem perfeitamente ao que o narcisista espera. Por isso, essas relações tendem a se manter, mesmo carregadas de conflitos. Geralmente o narcisista exige admiração e perfeição num nível que só um conarcisista tentaria prover. Ainda assim, não é suficiente para o narcisista, que coloca a responsabilidade das suas frustrações no conarcisista, que as assume e geralmente pede desculpas por não ter conseguido atendê-las. Obviamente, isso vai minando cada vez mais a autoestima do conarcisista, que tende a se deprimir facilmente. As exigências constantes do narcisista colocam o conarcisista num estado  de ansiedade permanente, com receio de críticas e ataques. Ainda assim, o conarcisista não consegue sair da relação, pois acredita que o problema está em si mesmo e tem um grande medo de perder o narcisista.

Uma relação como essa, que leva a pessoa conarcisista a níveis extremos de baixa autoestima e alimenta a sensação de superioridade do narcisista, é muito intensa. No lado do conarcisista, o trabalho terapêutico busca, em primeiro lugar, fazer com que a pessoa perceba a característica doentia da relação. Ao longo do processo, ela precisa fortalecer as suas opiniões, suas visões de mundo e o respeito que ela tem consigo mesma, de preferência de forma autônoma. Através desse fortalecimento e da consciência em relação aos seus padrões, é possível que ela consiga abandonar esse tipo de relação e ter uma vida emocional mais saudável.

Referências

1. American Psychiatric Association (2014). DSM-5. Porto Alegre: Artmed.
2. Rappoport, A. (2005). Co-Narcissism: How we accommodate to narcissistic parents. http://www.alanrappoport.com/pdf/Co-Narcissism%20Article.pdf