psicoterapia

Atualmente, existe uma variedade de terapias à disposição das pessoas que buscam formas de se cuidar e de melhorar suas vidas. O fato de haver esse interesse no autocuidado e essa oferta de serviço por muitas pessoas — muitas vezes até bem-intencionadas — mostra um aspecto positivo da nossa época.

No entanto, quando se trata de psicoterapia, um cuidado maior é necessário. A psicoterapia é um processo delicado, em que aspectos complexos e profundos do nosso funcionamento psíquico são trabalhados. Quando isso é feito por alguém que não tem a capacitação adequada, há grandes riscos de o processo trazer mais problemas do que resolvê-los e transformar a psicoterapia num processo traumático.

Os psicólogos e psicólogas são os profissionais que têm a formação específica para avaliar, compreender, cuidar e tratar de questões emocionais e comportamentais. Fazer psicoterapia com uma psicóloga tem uma série de vantagens. Quais são elas?

1. A formação é extensa e adequada

O curso de psicologia é um curso de graduação que dura cinco anos. Para obter um diploma de psicólogo, o aluno precisa, além de cumprir todas as disciplinas teóricas, realizar uma grande carga horária de estágios com supervisão, já saindo da faculdade com experiências práticas nas suas áreas de atuação. Além disso, muitos psicólogos clínicos realizam cursos de pós-graduação, para aprimorar-se na sua abordagem de trabalho clínico. Só para você ter uma ideia, um curso de especialização em terapia cognitivo-comportamental tem mais de 450 horas entre aulas, atendimentos e supervisões.

2. A psicologia tem um conselho de classe

A profissão de psicólogo é regulamentada pela lei 4119, de 27/8/62. Ou seja, é uma profissão estabelecida no Brasil há mais de 50 anos. Além disso, todos os psicólogos atuantes devem estar registrados no Conselho Regional de Psicologia (CRP) de seu estado. Isso significa que o trabalho do psicólogo é orientado, acompanhado e fiscalizado pelo conselho. Se você tiver algum problema com a atuação de um psicólogo, você tem a quem recorrer e reclamar. O mesmo acontece com médicos psiquiatras, que estão inscritos no Conselho Regional de Medicina. Quando você faz uma psicoterapia com um profissional que não tem sua atuação regulamentada, não tem essa segurança.

3. Qualidade técnica e científica

O trabalho do psicólogo é regido pelo Código de Ética Profissional. Nele, há uma série de diretrizes sobre como deve ser a conduta nos atendimentos. E uma das coisas que o código diz é que o trabalho do psicólogo deve se basear em técnicas e ferramentas científicas. Ou seja, um psicólogo não trabalha com nada que não tenha respaldo da sua eficácia e validade. Isso garante a qualidade e seriedade da psicoterapia.

4. O psicólogo é um profissional de saúde

Ele está presente em equipes multidisciplinares de cuidados de saúde em UBSs, hospitais, CAPS, clínicas e outros serviços, juntamente com médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. A psicoterapia é uma ferramenta de promoção, prevenção e cuidado na área de saúde mental. Por conta disso, mesmo em psicoterapias individuais, é comum que o psicólogo trabalhe em conjunto com outros profissionais, fornecendo um serviço amplo de saúde para a pessoa atendida.

5. Você pode ter reembolso do seu plano de saúde

Uma vez que o psicólogo é uma profissional de saúde reconhecido, você pode obter reembolso de valores parciais ou totais do gasto com a sua psicoterapia pelo seu plano de saúde. Muitos planos também contam com profissionais cadastrados, em que o atendimento é integralmente coberto pelo convênio. Basta que você tenha um encaminhamento médico para a psicoterapia. Ah, e se você preferir, pode usar os recibos ou notas fiscais de sessões psicológicas para abatimento no Imposto de Renda.

Por isso, se você está buscando uma psicoterapia com qualidade e segurança, não se arrisque. Procure um psicólogo ou psicóloga.

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é uma psicoterapia que vem atraindo muita atenção pelo seu caráter inovador, ao mesmo tempo que mantém uma base teórica sólida. Ela ela costuma ser classificada como uma terapia cognitivo-comportamental de terceira onda, ou seja, no mesmo campo de outras terapias comportamentais e cognitivas, mas com características específicas. Quais são esses aspectos que tornam a ACT diferente?

Vamos comparar a ACT com a TCC, ou terapia cognitivo-comportamental “convencional”, que foi desenvolvida ao longo dos anos por nomes como Albert Ellis, aaron T. Beck e com contribuições da psicologia comportamental. A TCC é considerada uma terapia de segunda onda e tem resultados bastante positivos para uma série de transtornos, sendo, até o momento a psicoterapia que mais possui base científica de seus ganhos com diversos transtornos.

1. A ACT é baseada numa filosofia diferente

Ao contrário da maior parte das outras psicoterapias, a ACT parte de um pressuposto filosófico diferente. Essa filosofia é chamada de contextualismo funcional. Nessa visão, não se pode avaliar nada que exista separando-se um elemento do seu contexto. Sejam pessoas, pensamentos, comportamentos, tudo é visto na função que exerce dentro de uma situação específica. Essa visão filosófica distinta pode parecer muito abstrata, mas faz toda a diferença na forma como a terapia funciona, como veremos a seguir.

2. A ACT não enxerga as pessoas, pensamentos ou emoções como disfuncionais

A TCC se apoia na ideia de que as psicopatologias existem porque certos conteúdos internos são disfuncionais, ou seja, não estão de acordo com a realidade externa. Esses erros de interpretação levam a sofrimento psíquico e atitudes “erradas”, que em última instância são vistas como patologias. A proposta terapêutica da TCC é, então, modificar a forma como o indivíduo vê o mundo e, consequentemente, mudar o seu comportamento para um mais adequado.

Já para a ACT, nada pode ser visto fora do seu contexto. Então, não faz sentido, nessa perspectiva, rotular pessoas, pensamentos ou comportamentos como disfuncionais, errados ou “patológicos” por si só. Ao contrário: na ACT, tenta-se entender para que eles servem, ou qual a função de qualquer coisa que a pessoa faça dentro do contexto que ela está. Além disso, leva-se em consideração, como critério para entender o quanto um comportamento está funcionando ou não, a vida que a própria pessoa valoriza. Os valores da pessoa são utilizados como critério de funcionamento, e não critérios diagnósticos.

3. A ACT não busca reduzir ansiedade ou qualquer outro conteúdo interno

Na TCC, entende-se que certos pensamentos ou emoções são disfuncionais, especialmente quando ocorrem em excesso ou trazem muito sofrimento para o indivíduo. Um dos objetivos da terapia, então, é reduzir essas sensações, como ansiedade ou pensamentos obsessivos, por exemplo. A ideia é trazer a pessoa para um nível de funcionamento que é considerado normal ou não patológico.

A ACT entende que o sofrimento faz parte da vida. Nessa visão, é totalmente natural se sentir ansioso, triste ou desanimado, dependendo do contexto. A ACT só verá esses pontos como problemáticos quando eles impedem a pessoa de viver a vida que ela considera significativa. Mesmo assim, a proposta não é a de reduzir essas sensações para que então a pessoa possa fazer aquilo que gostaria, mas sim abrir espaço para esses conteúdos de modo que eles não impeçam mais a pessoa de agir.

4. A ACT não busca mudar o conteúdo de pensamentos

A TCC procura combater pensamentos disfuncionais através de técnicas que apontem as distorções cognitivas, ou seja, o quanto uma pessoa interpreta de maneira errada a realidade. O pressuposto é o de que se a pessoa mudar a forma de pensar, mudará também o seu comportamento. Às vezes, o caminho contrário também é utilizado: através de estratégias comportamentais, busca-se criar consciência sobre a falta de acurácia dos pensamentos.

Na ACT, não se questiona o conteúdo dos pensamentos. Acredita-se que entrar num embate interno com a própria mente não traz uma solução definitiva. Propõe-se, então, uma mudança na relação que se tem com os pensamentos e outros eventos internos. Uma delas é a desfusão cognitiva, ou seja, o desenvolvimento de um eu observador que consegue notar o funcionamento da mente e fazer com que ela influencie menos os seus comportamentos.

5. A ACT procura promover uma vida mais plena e significativa

A TCC costuma ser orientada para a resolução de problemas psicológicos, ou seja, através de diagnóstico, levantamento de sintomas patológicos e sua correção através de técnicas comportamentais e cognitivas. Dessa maneira, pretende-se que a pessoa consiga funcionar melhor dentro daquilo que é visto como normal ou adequado.

Na ACT, a busca não é por resolução de problemas — até porque se entende que não há nada de errado a princípio — e sim por auxiliar a pessoa a viver mais próxima dos seus valores. Valores são qualidades que a pessoa gostaria que seu comportamento tivesse, como honestidade, dedicação, generosidade, coragem etc. Eles são o norte da terapia e são estabelecidos pela pessoa atendida, não pelo terapeuta. O papel da terapia é aproxima a pessoa de seus valores, ao mesmo tempo que trabalha maneiras de conviver com o sofrimento natural da vida.

Apesar das diferenças, ambas as terapias tem muito em comum: são terapias objetivas, ativas, ajustadas para a necessidade de cada indivíduo, progressivas e preocupadas com a fundamentação científica. O quanto uma será melhor do que a outra depende de cada pessoa, de suas preferências, do momento em que está vivendo e também da relação terapêutica. Uma boa relação terapêutica é mais importante do que a técnica.

O importante é ressaltar que ambas são terapias bem consolidadas e podem ser extremamente úteis no tratamento de dificuldades psicológicas e na promoção de uma vida melhor.

Capturar2Como lidar com a culpa? Essa é a pergunta que o psicólogo Rodrigo Fernando Pereira, do Núcleo Interface, busca responder no artigo publicado na revista Grandes Temas do Conhecimento: Psicologia, número 43. Confira um trecho do texto:

O primeiro passo para lidar com a nossa própria culpa, então, é identificar se o que estamos sentindo é uma culpa construtiva ou destrutiva. A culpa construtiva está relacionada a uma ação concreta que fizemos e que vai contra os nossos princípios e valores, causando mal a alguém ou a nós mesmos. Nesse caso, o problema não é o sentimento de culpa, e sim as nossas ações. Apenas através de uma mudança nas nossas atitudes podemos amenizar o surgimento desse tipo de culpa. A culpa construtiva é, então, um chamado para que possamos mudar.

Não ajuda, no caso de realmente termos feito algo de errado, ficarmos “remoendo” os nossos erros. Devemos aprender com eles e seguir em frente. Do contrário, caímos no risco de ficar constantemente nos condenando, dizendo para nós mesmos: “eu não sou bom”, “eu não faço nada direito”, “eu não sirvo para nada”. Se formos muito longe com isso, entramos num modo de vitimização e autopiedade que passa a permear nossas vidas. Se você fez algo errado, analise a situação, entenda o que levou você a agir dessa forma, pense no que pode aprender com isso e siga em frente. Sem autocomiseração.

Na maior parte das vezes, no entanto, o sentimento de culpa com o qual temos que lidar não se refere a algo que realmente tenhamos feito. A culpa é frequentemente confundida com o medo, especialmente o medo de julgamento, da perda das pessoas próximas e dos resultados indesejáveis das nossas ações. Ou, pior ainda, é comum que a culpa nos leve a fazer coisas ainda piores para tentar resolvê-la.

A revista pode ser adquirida no site da Editora Mythos.

coffee 1319550 640x640Pode ser difícil saber se um determinado comportamento é um simples hábito ou uma adição. Adição ou comportamento aditivo é o nome técnico para vício. Um aspecto básico da identificação de uma adição é o quanto ela priva a pessoa da própria liberdade. A pessoa adita não parece ter escolha em relação ao vício e pode até mesmo ir às últimas consequências para manter a adição. Isso pode trazer consequências drásticas para si mesma e para as pessoas com quem ela convive.

Quando pensamos em adições, logo associamos com substâncias como álcool, drogas e medicamentos. Entretanto, o padrão de adição pode estar ligado a relacionamentos, poder, dinheiro, controle, comida e assim por diante. Mas, como saber se um determinado comportamento é uma adição? Temos algumas diretrizes1,2 que podem nos ajudar a ter mais clareza. As adições costumam ter cinco caraterísticas que nos permitem identificá-las:

1. Tolerância

É a necessidade cada vez maior de uma determinada substância ou recompensa para se obter o mesmo efeito. A tolerância indica que a pessoa nunca está satisfeita; ela sempre precisará de mais, com a ilusão de que, se tiver um pouco mais, tudo ficará bem.

2. Abstinência

É uma reação do organismo que, por estar acostumado a uma certa estimulação, gera estresse a mesma está ausente. A interrupção do comportamento aditivo é percebido como algo errado pelo sistema nervoso central e pode envolver desde uma simples irritabilidade até tremores ou pânico.

3. Autoengano

O autoengano é a nossa capacidade de nos iludir para manter o vício. Quando estamos acreditando que está tudo bem, que se tem controle sobre a adição, que se pode parar quando quiser e outras racionalizações, estamos num estado de autoengano.

4. Perda de controle

A pessoa adita tem a sensação de não ter mais controle sobre o seu comportamento. É possível identificar a perda de controle, por exemplo, pelas diversas tentativas frustradas de interromper o comportamento aditivo.

5. Distorção da atenção

O foco da adição tende a ser também o foco da atenção da pessoa. Ela pode passar boa parte do tempo imaginando como será quando ela estiver dentro do seu vício (por exemplo, imaginando um doce no fim do dia), pensa constantemente em como conseguirá se engajar na adição, formas de ter mais tempo para as adições etc. Ou seja, a adição passa a controlar grande parte da vida.

Nós todos temos, em algum nível, alguns tipos de adição. É importante avaliar o quanto o resto da nossa vida é afetada pelos nossos comportamentos aditivos. Quando se trata de adições mais sérias, que envolvem risco de vida ou de saúde, um tratamento é recomendado.

Referências

1. American Psychiatric Association (APA). (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 (M.I.C. Nascimento et al., trad., A.V. Cordioli et al., rev. técnica). Porto Alegre: Artmed.
2. May, G. D. (1988). Addiction and Grace: Love and Spirituality in the Healing of Addictions. New York: Harper Collins.